Exposição ao calor excessivo no trabalho aumenta risco de pedra nos rins.

Além de suportar temperaturas de até 80º C, operários da indústria siderúrgica encontram outros inconvenientes no seu dia a dia. Comparados aos funcionários que trabalham longe do metal incandescente, eles têm nove vezes mais chance de contrair pedra nos rins. A conclusão é de uma pesquisa realizada numa grande siderúrgica do Rio de Janeiro após a análise do prontuário médico dos trabalhadores.

“A alta ocorrência de cálculos renais me levou a investigar os fatores de risco ligados ao problema”, explica o médico urologista Luiz César Lopes Atan, autor da tese de doutorado. Mas o qual a relação entre o calor e a litíase, o nome científico dessa doença? “A perda de líquido pelo suor intenso leva à desidratação”, explica o professor da disciplina de Urologia da UNIFESP Valdemar Ortiz. “Conseqüentemente, a urina fica muito concentrada, propiciando a formação de cálculos”, completa Ortiz, que orientou o estudo.

Outros fatores que poderiam propiciar a formação de pedras nos rins nos operários, como tempo de profissão na empresa, doenças associadas, antecedentes familiares e alimentação realizada na siderúrgica, não se mostraram significantes na pesquisa realizada com os funcionários.

O estudo verificou que 8% dos trabalhadores das áreas com temperaturas elevadas apresentaram pelo menos um episódio de cálculo renal. As estatísticas sobre a doença demonstram, na maioria dos casos, que depois da primeira crise várias outras podem ocorrer.

“O difícil é convencer a pessoa que já teve litíase a fazer a prevenção com uma dieta pelo resto da vida. Após a eliminação dos cálculos e das cólicas ele não pode mais ser considerado doente”, diz Ortiz. “Entretanto, é uma doença que pode causar a perda do rim, quando os cálculos são maiores e não são tratados de forma adequada.”

Cozinheiros, motoristas de ônibus e ambulantes

Além de operários de siderúrgicas, outros trabalhadores, como ambulantes, motoristas de ônibus e cozinheiros, também convivem com temperaturas altas. Como não é possível evitar o calor, a recomendação dos médicos é a de manter-se sempre bem hidratado. Aqueles que já tiveram algum episódio de cálculo renal também devem diminuir a ingestão de carne vermelha – pois pode predispor à formação de cálculos de ácido úrico e de cálcio – e de sal de cozinha, já que o sódio também aumenta o volume de cálcio na urina.

O ideal, segundo Luiz César Atan, seria que as empresas siderúrgicas colaborassem na prevenção, conscientizando seus funcionários da importância da hidratação abundante, além de instalar bebedouros com água em temperatura agradável ao paladar. “A adição de citrato de potássio nesses bebedouros ajudaria a diminuir as chances de formação de cálculos, pois a ação dessa substância no organismo é um fator de proteção contra a doença.”

Para o presidente do Sindicato dos Siderúrgicos e Metalúrgicos da Baixada Santista, Uriel Villas Boas, a notícia sobre a incidência de cálculos renais é uma desagradável surpresa, já que nunca o problema foi abordado com ele por médicos do trabalho. “Sabemos da importância da hidratação por causa do suor excessivo, porém nunca ouvi falar de outros riscos ligados à exposição ao calor intenso”, afirma. “É importante a divulgação desse tipo de pesquisa para que possamos atuar não só com campanhas educativas, mas realizar um levantamento sobre o problema nas empresas e fazer com que elas cumpram os requisitos necessários para favorecer e estimular a hidratação.”

A pesquisa foi realizada com 10.326 funcionários de uma siderúrgica do Rio de Janeiro, no período de março de 1999 a dezembro de 2002. Dos 1.289 trabalhadores das áreas com temperaturas elevadas (próximas aos fornos e ao setor de laminação do aço), cerca de 8% (103) apresentaram pelo menos um episódio de cálculo renal. Já entre os 9.037 expostos à temperatura ambiente esse índice foi bem menor: 0,86% (78).

Fonte: Jornal da Paulista

Publicado em 23 de fevereiro de 2011, em: Diversos
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